17 setembro 2010

Liberté

". . . aqui eu não sou um garoto negro, sou só um garoto."
Por: Jeh Blue Jeans

Uma vez vendo desenhos na TV, sem prestar muita atenção, eu ouvi uma frase de um personagem… era o desenho do Super Choque/Static Shock [aquele neguinho que estava numa explosão e ganhou poderes, ele e tantos outros, aliás, mas ele era o herói do desenho]. Enfim… nesse episodio especificamente ele vai visitar a áfrica com o pai e a irmã, não lembro bem se foi ainda no trem ou se ele esperou pisar no país pra dizer, mas a frase foi mais ou menos isso:

- O legal de estar na África, é que aqui eu não sou um garoto negro, sou só um garoto.

Disse isso e riu um riso de desenho… só isso e saiu pela cidade comprando e resolvendo mistérios com outro herói lá das áfricas, uma espécie de zorro. Bom… não sei se quando escreveram os autores tiveram essa idéia de reflexão, talvez sim, pois é um desenho cheio de reflexões do tipo.

Esse episodio me fez pensar… pensar muito, já tem uns anos que eu vi e ainda me lembro [bem mal… mas me lembro o espírito da coisa eu peguei pelo menos].

Me deu vontade de estar na África também, desde então senti-me inclinada aquele país, foi de lá que vieram 50% da minha carga genética por assim dizer, toda uma vida, séculos de vida alias… de vida e sofrimento… e o que eu sei deles? Nada.

Só o que li nos livros de historia, o livro que brancos me escreveram… e que dizem mostrar o meu povo. O que me lembra outro desenho… ou filme sei la… em que um menino diz que a historia não tem credito, nem validade, pois só é contada pelo lado que vence, pelo opressor… e se outro conta um lado novo, é relegado à categoria de contos populares… algo que não merece tanto mérito.



Sempre ouvi falar da época em que eles sofriam… eram escravos de brancos malvados, que castigavam e humilhavam… da criança aos velhos. ouvia falar também que graças à princesa boa, foram todos libertos e que depois disso foram felizes.

O que eu tive que descobrir sozinha, é que logo depois de livres eles foram presos de novo. Muitos senhores não soltaram.. e os que soltaram.. largaram de vez… e eles ficaram por ai…jogados no Brasil. Mendigos por todos os lados… sem trabalho e com fome e os que deram sorte não foram muito longe disso não. Recebiam menos… trabalhavam mais.

Um povo que veio sofrendo desde o dia em que europeus chegaram as suas terras, assim como fizeram aqui com os índios, saqueando, violentando e escravizando. Um povo marcado por batalhas, tragédias e muitas lutas… lutas desonestas.

E agora tentam consertar todo esse sofrimento, oferecendo a nós, como pedido de desculpas por séculos de dor, benefícios duvidosos. Comprovantes de incapacidade, de inferioridade, mascarados de intenções benevolentes. Fomos de mal do mundo a coitadinhos incapazes.

Sempre me pego pensando se estou mesmo livre, se existiu mesmo tal carta de princesa que garantia isso a todos nós. Que liberdade é essa? Que me faz mais presa com suas correntes invisíveis. Onde num país em que sou maioria, ainda me sinto tão menor.

Voltando… queria sentir o que o ele descrevia… a sensação de ser só uma garota, uma pessoa a mais andando nas ruas… estar num mundo… outra cultura, a que deveria ser a minha cultura e ser só mais uma.

Saber que se me olham não é por estranhamento, ou preconceito, viver num lugar onde não me olhariam de canto de olho, esses olhares tortos são os piores, ferem como armas.

Onde eu não ouviria piadas sobre o meu cabelo, onde a minha boca grande ou o nariz largo seria coisa bonita ou normal.

Um lugar onde as princesas sejam reais, sejam belas, e cheias de curvas e com roupas coloridas… e sejam deusas e seus príncipes sejam também reais… bravos caçadores, heróis do dia-a-dia e tenham todos a pele cor de mogno, o tom da meia-noite.

Onde a cultura do povo seria respeitada e vista como beleza e arte, dos colares de contas ás comidas…

Queria sair pelas ruas e ver as mães com seus filhos nas costas, nos braços, enquanto trabalham e ganham suas vidas, as crianças correndo, o mundo se movendo.. em meio a todas as dificuldades daquele pais. Fome, seca, miséria na sua mais dura face, e ai eles se aproximam e ficam aqui pertinho… eu não preciso ir longe… em outro continente para ver isso. Tenho uma áfrica aqui mesmo no Brasil.

Aqui também se passa fome, as pessoas morrem disso também aqui, morrem de sede, de doenças.. jogadas por ai…

Aqui eu veria as mesmas mães com seus bebes, vivendo e trabalhando… aqui também andaria por todos os lugares… andaria livre, com a liberdade que me deram.. desde que nasci.

Liberdade de sangue e suor de muitos… muitos que vieram de lá…
da terra onde eu queria ir passear e ser só uma garota.

Por: Jeh Blue Jeans

3 comentários:

  1. Fantástico o texto!Todos os negros deveriam ter a chance de pensar assim,como nós!

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  2. com certeza...mas ate essa chance de pensar nos foi tirada, eu mesmo ainda não tomei a dimensao total dela..mesmo pensando e escrevendo..o liberté é uma reflexao da minha liberdade...ou melhor da falta dela!

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  3. Sim,claro...Esse é só o comecinho.É muito mais sentimento,do que fatos e constatações!

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