23 março 2011

Sim! Sou negra!

Por: Camila Marins

“Por favor, você poderia encher a garrafa de café?”. Foi exatamente isso que ouvi em um evento que fui cobrir destinado a engenheiros e advogados. Apenas respondi à elegante senhora: “Desculpe, mas eu também gostaria de tomar um café. Sabe onde podemos encher?”. Fui cobrir a atividade para fazer uma matéria sobre o pré-sal e a cor do petróleo se fez presente. Sim, sou negra!

Há algumas semanas outro fato interessante aconteceu. Eu estava entrando na minha casa quando a vizinha me abordou e perguntou se eu era a tratadora dos gatos que criamos em casa... Eu disse que não e que morava ali e ela insistiu: “Você mora onde? Aqui no bairro?”. Eu disse não, moro neste apartamento. E ela, um pouco sem graça, continuou a conversa sem eira nem beira e, ao final, ainda me cumprimentou com um beijo no rosto, gesto que não foi feito no início da conversa. Ou seja, tentou contornar a situação com um beijo de Judas.

Agora, nesta segunda-feira passada, estava chegando do aeroporto, vindo de Manaus, com muita bagagem e o porteiro prestativo interfonou no meu apartamento e disse: “Olha só, sua secretária está subindo com um monte de malas, alguém pode ajudá-la?”. Meu amigo questionou se era nossa secretária doméstica e o porteiro disse: “Não, é a Camila”. Então, novamente, eis a confusão. Não me importa ser confundida com secretárias, domésticas ou qualquer outra profissão, o que realmente me importa é a violência do preconceito racial. E a dimensão desta dor poucos conhecem. Ou talvez muitos, já que a maioria de nós faz parte da imensa parcela de excluídos.

E, mesmo diante de situações cotidianas como as descritas acima, nós, excluídas e excluídos, ainda somos acusados de vitimização. Inadmissível, pois só corrobora para a hipocrisia e praticamente ignora o preconceito. Não adianta me dizer que no Brasil não existe preconceito. Existe sim e convivemos com essa dor cotidianamente. Outros ainda me dizem: “Você não é negra. É morena de cabelo cacheado”. Então, me respondam se eu não sou negra, porque sofro preconceito racial incessantemente?

Sim! Sou negra!

Camila Marins - Jornalista
(21) 9530-6850 ou 7860-8720
ID Nextel: *112*76751
Twitter: @camilamarinsjor
camilamarins.blogspot.com
camila_marins@yahoo.com.br
camilinhamarins@hotmail.com

3 comentários:

  1. Ótimo post!!
    Retrata bem o que mulheres negras passam diariamente. E as pessoas dizem que racismo nao existe...!

    Bjs

    ResponderExcluir
  2. Quem nunca passou por uma situação dessas, né?
    Parabéns pelo texto!
    Belo, e triste, depoimento.

    ResponderExcluir
  3. Parabéns Camila!

    Você conseguiu sintetizar o que nós passamos no dia a dia. Me identifiquei muito com seu texto e já sofri vários tipos de preconceito, principalmente por exercer um cargo de gerência na terceirizada de uma grande empresa concessionária de serviços aqui no RJ. As pessoas falam comigo no telefone, e quando me conhecem levam um susto ao ver que sou negra. Como se isso interferisse no meu desempenho profissional...

    Beijos,
    Joana

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...